sábado, 16 de fevereiro de 2013

Fantasie-se o quanto se queira, o mais provável é que tenhamos a sexta eleição polarizada por tucanos e petistas. E que, nela, o grande favorito seja o PT.


Marcos Coimbra, Carta Capital

Ao longo dos últimos 20 anos, a política brasileira, no fundamental, foi regida pela polarização PT/PSDB. Desde 1994, todos nossos presidentes da República saíram de um dos dois partidos.
Seria razoável imaginar que essa polaridade será rompida na próxima eleição? Parecem significativas as chances de que o futuro presidente venha de outra legenda?
Quem acompanha os comentaristas e analistas da “grande imprensa” deve estar acreditando que sim. De tanto ouvir falar em terceiros ou quartos nomes, talvez suponha que esse longo ciclo se encerrará ano que vem.
Não há, no entanto, sustentação para a hipótese, salvo especulações despropositadas. O que quer dizer que teremos mais uma eleição que culminará com o eleitorado escolhendo entre os candidatos de um ou outro.

 Isso, é claro, não implica que não possamos ter várias candidaturas, vindas de muitos partidos. Em 1994, foram oito; em 1998, doze. Na primeira eleição vencida pelo PT, seis candidatos disputaram. Na segunda, oito. Em 2010, passaram a nove.
Em todas essas eleições, tivemos nomes que saíram “consagrados” das urnas, saudados como fenômenos por conseguir desempenho considerado surpreendente.
Em 1994, o fato novo foi o pitoresco Enéas Carneiro, com seus quase 7,5% dos votos válidos. Em 1998, foi Ciro Gomes, que beirou 11%. Na seguinte, Garotinho quase obtém 18%. Em 2006, Heloisa Helena chegou a 8%. Na mais recente, Marina Silva arremeteu no final e ultrapassou 19%.
Ou seja: mesmo em uma eleição tão sui generis quanto a primeira de Fernando Henrique, costuma aparecer alguém para atrapalhar a bipolaridade. No máximo, porém, como Garotinho ou Marina, se aproximam dos 20%.
Curioso é especular a respeito dessas “surpresas” no médio prazo. Sem falar de Enéas, que já morreu, todos emagreceram: Ciro, que parece haver desistido da política nacional; Heloísa Helena, que virou vereadora; Garotinho, que sobrevive graças a seu feudo no Norte Fluminense.

E Marina?
Hoje, quando escrevem sobre as perspectivas da eleição, os comentaristas gostam de lembrar sua performance na anterior, como se significasse uma espécie de piso. Como se tivesse formado base sólida na sociedade, tão expressiva quanto o quinto do eleitorado que sufragou seu nome.
Dá-se o caso que a votação que recebeu foi muito mais determinada por fatores de rejeição aos outros candidatos que por sua capacidade de atrair apoios. Se não houvesse um eleitorado incomodado com Dilma e Serra, que não os queria por motivos diferentes, Marina pouco iria além dos 7 a 8% que tinha desde o início de 2010 e que eram genuinamente seus, motivados por sua biografia, agenda e imagem.

E Eduardo Campos?
Desde o fim da eleição do ano passado e agora depois da escolha dos novos presidentes do Senado e da Câmara, nossa mídia anda cheia de especulações sobre o “crescimento” de sua candidatura ao Planalto. Como se não apenas fosse candidato, mas tivesse elevada possibilidade de vencer.
A tese do crescimento do governador de Pernambuco deriva de um suposto duvidoso: de que o aumento do número de prefeituras conquistadas pelo PSB em 2012 expresse um realinhamento relevante de opiniões e preferências na sociedade. De que uma parcela expressiva do eleitorado “votou no PSB”.

Nada autoriza acreditar nisso. O PSB entrou na eleição de 2012 pequeno na identificação popular e assim saiu. Aqui e ali, as pessoas votaram em seus candidatos, sem que esse comportamento possa ser considerado reflexo de qualquer mudança em suas simpatias.
Como partido de massa, o PSB inexistia antes da eleição e continua a inexistir.
Tampouco faria sentido falar em “crescimento da candidatura” do governador Eduardo Campos como se tivesse havido aumento de sua visibilidade, propiciada pela exposição da campanha. Ele começou o ano de 2012 quase desconhecido fora de seu estado e o terminou da mesma maneira.

Ao contrário do PT e outros partidos ideológicos, o PSB nada mais é que um agregado de quadros políticos e lideranças que se associaram para perseguir alguns (poucos) objetivos comuns, sem, necessariamente, compartilhar convicções e projetos.
Ou alguém acha que, por exemplo, Cid Gomes, está engajado na candidatura do correligionário?

No fundo, o PSB tem mais semelhanças com o PMDB que com os partidos à esquerda. A velha ideia da federação de oligarquias regionais, que tão bem descreve aquilo em que se tornou o antigo MDB, se aplica igualmente a ele. Em cada lugar, dança conforme a música: aqui situacionista, ali de oposição.
Fantasie-se o quanto se queira, o mais provável é que tenhamos a sexta eleição polarizada por tucanos e petistas. E que, nela, o grande favorito seja o PT.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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