sexta-feira, 24 de maio de 2013

UNE, OS 53 CONGRESSOS E AS CENTENAS DE DESAFIOS (1


Site elenca e revive os principais momentos dos Congressos históricos da entidade

A história da UNE se confunde com a do próprio Brasil no último século e no começo deste. Tanto que a entidade, no próximo mês, do dia 29 de maio ao dia 2 de junho, chega ao seu 53º Congresso (Conune) fortalecida, encarando de frente os desafios ao lado de centenas de milhares de jovens que sonham em transformar o Brasil em um país muito melhor. Para conquistar esse número, 53, a entidade passou por um turbilhão de acontecimentos políticos, sociais e econômicos.
Quem nunca estudou na escola o tão falado Congresso de Ibiúna, conhecido como o encontro interrompido de 1968? Ou ainda o Congresso que respirou novos tempos, o de reconstrução da entidade, em 1979, após uma ditadura envergonhada, escancarada, derrotada e encurralada? Foi a partir de um Congresso da UNE, em 1992, que o movimento “caras-pintadas”ganhou força e decidiu sair às ruas pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo.
Nas vésperas de acontecer mais um Conune, a maior instância do movimento estudantil brasileiro, quando é escolhida a nova diretoria da UNE e quando são decididos os rumos da próxima gestão, o site da entidade elenca e revive os principais momentos dos Congressos históricos.

1937, nasce a UNE

No dia 11 de agosto de 1937, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, o então Conselho Nacional de Estudantes conseguiu consolidar um grande projeto, já almejado anteriormente algumas vezes, de criar a entidade máxima dos estudantes, com representação nacional. Reunidos durante o encontro, os jovens batizaram a instância de União Nacional dos Estudantes. Desde então, a UNE começou a se organizar em congressos anuais e a buscar articulação com outras forças progressistas da sociedade. O primeiro presidente oficial da entidade foi o gaúcho Valdir Borges, eleito em 1939.
Os primeiros anos da UNE acompanharam a eclosão da segunda guerra mundial. Os estudantes brasileiros,  até então recém-organizados, tiveram ação política fundamental no Brasil durante esse processo, opondose desde início ao nazi-fascismo de Hitler e pressionando o governo do presidente Getúlio Vargas a tomar posição firme durante a guerra. Entraram em confronto direto com os apoiadores do fascismo, que buscavam maior espaço para essa ideologia no país.
No calor do conflito, em 1942, os jovens ocupam a sede do Clube Germânia, na Praia do Flamengo 132, Rio de Janeiro, tradicional reduto de militantes nazifascistas. No mesmo período, o Brasil entrava oficialmente na guerra contra o Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. Naquele mesmo ano, o presidente Vargas concedeu o prédio ocupado do Clube Germânia para que fosse a sede da União Nacional dos Estudantes. Além disso, pelo decreto-lei n. 4080, o presidente oficializou a UNE como entidade representativa de todos os universitários brasileiros.

1968, Ibiúna e o Congresso interrompido

Foi em pleno feriado que uma enorme operação policial foi montada para desmantelar o que seria até então a última tentativa do movimento estudantil de organizar uma luta massiva contra a ditadura militar naquele explosivo ano de 1968, que acabou resultando na promulgação do Ato Institucional nº 5, o AI-5, decreto que intensificou a repressão política e formalizou os poderes da ditadura.
A entidade havia sido fechada durante o golpe de 1964 e, no dia 1º de abril, primeiro dia do golpe militar, sua sede nacional, localizada no Rio de Janeiro, fora incendiada pelos militares.
“A ditadura queria calar a voz da UNE e dos estudantes nas faculdades e nas ruas desde o golpe. Já havia montado a provocação que levou à ocupação e à destruição do prédio da Filosofia da USP na rua Maria Antônia, em São Paulo, usando uma minoria de estudantes de direita armados pelos DEOPS e com apoio do CCC (Comando de Caça aos Comunistas, uma organização paramilitar) para nos atacar e depois apresentar à sociedade como uma briga entre estudantes da USP e do Mackenzie. A repressão ao congresso segue esse caminho que levou ao AI-5, que liquidou todas as garantias constitucionais e acabou com todas as liberdades, institucionalizando a ditadura. O movimento estudantil era a vanguarda na luta contra a ditadura, mas foram as greves operárias de Osasco (SP) e Contagem (MG) que de fato assustaram os militares e a direita, que temiam a aliança dos estudantes com os operários e organizações da resistência à ditadura”,  relata ao site da UNE o expresidente da UEE-SP, José Dirceu.
Os estudantes se organizavam às escuras e a pacata cidade de Ibiúna, interior de São Paulo, com seus apenas seis mil habitantes na época, foi o cenário escolhido para dar continuidade a mais um capítulo histórico da entidade. Os jovens militantes decidiram se reunir clandestinamente para promover o 30º Congresso da entidade, em 12 de outubro de 1968.
O encontro foi interrompido e registrou uma das maiores operações de prisão em massa da história do Brasil:  os cerca de mil policiais da Força Pública e do DOPS destacados para invadir o lamacento sítio Murundu chegaram, à pauladas e pontapés, no dia do credenciamento dos estudantes.
Foram 920 presos, todos estudantes, na maioria universitários, vindos de todas as partes do país. Eles  não chegaram nem mesmo a concluir o Congresso. As lideranças do movimento estudantil também foram levadas: José Dirceu, até então presidente da UEE; Luís Travassos, presidente da UNE; Vladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana de Estudantes; e Antônio Guilherme Ribeiro Ribas, presidente da União Paulista de Estudantes Secundaristas.
A prisão dos estudantes em Ibiúna não foi um acontecimento qualquer que passou desapercebido da população. E para a UNE, foi ainda mais marcante: o início de uma verdadeira batalha contra a repressão. Após o AI-5, as lutas estudantis entraram numa fase de refluxo, mas não deixaram de existir. Ainda em abril de 1969 realizou-se uma grande plenária nacional – considerada por todos como legítima continuadora do 30º Congresso da UNE. Nela, se elegeu uma nova direção na qual Jean Marc Von Der Weid  era o presidente. Os estudantes João de Paula, Helenira Resende, Ronald Rocha, Aurélio Miguel, Honestino Guimarães, Valdo Silva, Umberto Câmara, José Carlos da Mata Machado e Dora Rodrigues de Carvalho também foram escalados para representar a entidade.
A UNE continuou sua luta pelos direitos humanos, contra as prisões, as torturas e os assassinatos dos opositores ao regime até o fim. O ápice desse processo foram as manifestações públicas contra o assassinato do estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, ocorrido em março de 1973.
Esta gestão heroica resistiu até o final 1973, quando, finalmente, foi destroçada pela repressão. Honestino Guimarães e Umberto Câmara foram sequestrados e mortos em outubro. No mesmo mês caíram os dirigentes estudantis José Carlos Mata Machado e Gildo Macedo Lacerda. Assim, em poucos dias, os principais dirigentes estudantis foram brutalmente assassinados. Ronald Rocha foi preso e torturado ainda em 1972.
Numa entrevista dada ao Portal Vermelho no fim de 2010, Ronald Rocha afirmou: “Nunca, porém, tomamos a decisão de cerrar as portas da entidade ou renunciar aos mandatos. Estou convencido de que essa atitude de resistência, sem capitulação e sem derrota definitiva, facilitou a reorganização da entidade máxima dos estudantes brasileiros alguns anos depois, sem uma lacuna abissal que liquidasse a tradição e a memória coletivas”. Mesmo depois do seu desmantelamento, nos muros das universidades mutiladas, ainda podia se ler: “A UNE SOMOS NÓS!”.

1979, a reconstrução da UNE


O ano de 1979 foi de grandes mudanças no cenário político brasileiro. Nesse período, a ditadura começou a mostrar sinais de derrota, o que antes parecia aos leigos um avanço governamental com o milagre econômico e o sucesso da seleção brasileira de futebol.
Depois de 15 anos, a UNE, entre duras penas, tentou voltar a legalidade por meio do 31º congresso da entidade. A realização do encontro trouxe para o país a esperança da existência de uma democracia política de fato. Diversos setores da sociedade foram mobilizados pela possibilidade de esperança, de um país melhor, de uma nação democrática, de liberdade de expressão, dentre muitos outros sentimentos que os brasileiros tiveram que guardar por muitos anos.
Os jovens conseguiram naquele momento adentrar em uma das muitas fendas que começavam a se abrir com a fragilidade do regime. A reconstrução da UNE foi um período de transição democrática e da conquistas de espaços, que naquele momento eram influenciados por movimentos de juventude de todo o mundo.
O Congresso da reconstrução da UNE foi aberto pelo então presidente da entidade, José Serra. O encontro foi realizado no dia 30 de maio de 1979, no Centro de Convenções da Bahia e reuniu cerca de 8 mil estudantes de todo país.
 “Pode-se dizer que a conquista do seu 31º congresso e a luta contra a ditadura militar definiu o poder de organização da entidade. A reconstrução da UNE foi, sem dúvida, uma conquista fundamental do movimento estudantil, colocando em pé novamente sua organização nacional, sufocada pela ditadura militar”, afirmou José Serra em entrevista à revista Rolling Stones.
Na próxima segunda-feira, 27 de maio, o site da UNE irá publicar a segunda parte do especial sobre os principais congressos da entidade. Não deixe de conferir como foi o início do movimento dos caras pintadas em 1992, a participação de Fidel Castro em 1999 e a presença de Lula já nos 2000.
Patricia Blumberg

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