sábado, 13 de julho de 2013

Um movimento se movimentando – Análise dos movimentos dos últimos tempos.

Por Fabrício Paz - "O movimento estudantil que não está em constante movimento não é movimento".

Fabrício Paz - Diretor da UNE
As cores das ruas do Brasil romperam a dualidade do trabalho, estudos, compras e rotinas. Os meses de junho e julho deste ano foram completamente diferente de todos os que se passaram, desde as grandes mobilizações contra a ditadura. E mais uma vez quem estava lá junto as brasileiras e brasileiros indignados com a atual situação social, política e econômica do país? Os estudantes, o movimento estudantil.

Diferentemente de tudo, estas cores eram novas, eram singulares e ao mesmo tempo plurais, pois traziam em seu fundo dez anos de conquistas e avanços democráticos. Pois, o trabalhador que no final dos anos 90 ia às ruas lutando por emprego, por dignidade, por alimentação, contra fome e contra as pautas estabelecidas à época, hoje vai às ruas por mais qualidade nos serviços públicos prestados, hoje universais, como saúde, educação, mobilidade urbana e etc.


Os efeitos deste clamor social moveu uma juventude que, agora está dentro da Unversidade, enxergando os graves problemas sociais que ainda existem, observa-se que está dentro já não é suficiente, pois não temos carro para ir para aulas, temos que usar o transporte público caro e sucateado, por isso a luta pelo Passe Livre!

Muitos analistas, cientistas sociais, políticos e sociólogos começam a estudar o que estão chamando de ‘efeitos e sintomas do fenômeno social de uma possível crise de representatividade política’. Um conceito muito distante da realidade de grande parte do povo, que sim não se vê representado por boa parte de seus representantes eleitos por este Sistema Político.

Porém, quero abordar uma outra dimensão dos mesmos fatos. Existem algumas perguntas a serem feitas, entretanto, não podemos ser cartezeanos e tentar responder a todas, temos que refletir.
A primeira, quais foram os reais motivos que fizeram o povo se insurgir como vimos nos últimos dias?
A segunda, destas motivações quais propostas podemos sistematizar para concretamente apresentarmos ao conjunto da sociedade brasileira?
O movimento foi disputado por diferentes grupos ideológicos da sociedade, qual a lição que os movimentos populares podem tirar para construir uma agenda proativa com o conjunto de sua representação?

Para abordar as reflexões me basearei na teoria em que a sociedade é constituídas a partir de conflitos e contradições, antagonismo de classes (Marxismo), mas também que as motivações para as recentes manifestações sociais se dão por uma crise de identidade ideológicas e que as teorias que tentam explicar o mundo até hoje foram insuficientes para responder os anseios deste conjunto de sujeitos que vão para às ruas com o jargão ‘O Gigante Acordou’.

Vale lembrar que o mesmo jargão fora usado contundentemente durante o governo João Goulart (1962/1964) pelas marchas de Deus, pela família e pela propriedade. Em que reivindicavam um golpe contra um governo democraticamente eleito, pois o mesmo propôs reformas sociais, agrária e progressistas. Golpe este vitorioso.

O papel das entidades estudantis como a União Nacional dos Estudantes e a União Brasileiras dos Estudantes Secundaristas durante o processo de mobilização foram e ainda são fundamentais para dar rumo às grandes massas nas ruas que clamam por uma mudança e que, entretanto, não apresentam essa mudança, ou esse projeto de transformação.

O Estado Brasileiro com profundas raízes no capitalismo internacional passa por uma profunda crise de existência de suas instituições que não estão representando mais os clamores e vontades do seu Soberano Legítimo, O POVO. Com isso, cabe a nós, os movimentos populares organizados propor uma agenda ao país de uma profunda mudança e ruptura do aparato Estatal, estabelecendo novos mecanismos de participação política, representatividade ideológica e radicalizar a democracia.

O movimento estudantil não pode estar de carona naquilo que sempre o moveu, que são as ruas. Estamos nas ruas e de lá nunca saímos, mesmo quando tudo dizia para estarmos em casa, mesmo quando tínhamos um canhão apontado para nossas cabeças, lá estávamos, nas ruas, nas praças, nos campos, nos centros dizendo em alto e bom som: UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL.

Para isto temos que estabelecer uma conexão entre a inércia de boa parte das massas, capitaneadas por setores conservadores da sociedade, como a Grande Mídia, que monopoliza seu discurso anti-popular, imperialista, neoliberal e apolítico.

Esta conexão começa em realizar reuniões, em Centros Acadêmicos, casas, praças, ônibus, mercados, empresas, porta de fábricas, temos que discutir no cotidiano do conjunto dos trabalhadores e apresentar estas contradições do mundo do capital. A UNE poderia adotar agora neste momento uma grande agenda de ida a todas as universidades do país, cada sala de aula, debater com os estudantes os rumos para uma transformação real do Brasil. Seria a 2ª Caravana da UNE pelo Brasil.

Mas mais além de uma Caravana institucional da UNE, precisamos rearticular os mecanismos de comunicação das ações da entidade e do movimento em si. Criar um Observatório de Comunicação dos Estudantes do Brasil, um portal em que cada estudante diz o que acontece em sua Universidade, em sua cidade, a informação como instrumento de libertação local.

Acredito que o lema desta grande Caravana, que deve ser a maior de toda história da entidade, poderia ser ‘Pelo Brasil que nos UNE’. Pintar com nossas cores o nosso país de norte a sul.

Observemos também que apenas uma atividade do movimento estudantil organizado isoladamente não poderá fazer com que avancemos em uma pauta realmente ousada. Esta agenda deve ser incorporada movimentos sociais e populares identificados com um projeto popular e democrático como, Movimento dos Sem Terra, Centrais Sindicais, UBES e tantos outros grupos que podem ir do campo a cidade debatendo o Brasil que queremos.

Precisamos aproveitar este momento de Brasil, para apresentarmos o que queremos, como queremos e porque queremos. Uma plataforma de políticas públicas, sociais e de Estado que entre na agenda política do Congresso Nacional, do Governo Federal e do Supremo Tribunal Federal. Pautas que nos são cara, como a defesa da Soberania Nacional, justiça social, igualdade econômica, democratização das instituições políticas e da mídia, defesa do Estado Forte propulsor do desenvolvimento socio-economico-ambiental e da distribuição de renda e riquezas, não podemos abrir mão, mas temos que refletir se podemos abrir mão dos meios pelos quais temos convicções de atingir nossos objetivos.

Pintar com nossas cores esta história significa dizer que somos dela autores. Autores de uma Nova Era que pretende chegar, devagarzinho vem, mas vem com toda força da juventude e do povo Brasileiro.

O movimento estudantil que não está em constante movimento não é movimento.

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